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PT
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Túneis-de-árvores

Caminho rua a baixo, strada Mitropolit G. Banulesco-Bodoni, são 2 da manhã, a rua está quase vazia, passo pelo super-mercado aberto 24horas, poucas pessoas a fazer compras, o segurança cumprimenta-me. Quero fruta, pão, leite, talvez chocolate… alguém me toca o ombro direito, viro-me num reflexo, para ver quem é, ninguém… mas, ah! do lado oposto, o segurança! Eu sorrio, ele também. Caí outra vez!

Saio. Está frio, os primeiros frios do Outono de 2011, é Setembro, Outubro… Viro à esquerda para a Universidade de Estudos Económicos, caminho na semi-penumbra, piso asfalto, terra, pedra, betão… e à saída, à esquerda um túnel de árvores. Sim… inspiro, expiro, começo a sentir-me em casa… Rua Anton Pann, da cidade velha de Chisinau, mesmo no coração da cidade, a minha casa moldava é aqui.

Não viro à esquerda contínuo em frente, strada Capriana, com lojas-contentores à esquerda, depois o Elefante (café/tasca/bar de bairro) e chego a um largo jardim, sem nome, onde para além da rua Capriana convergem, as ruas Ion Doncev, St. Andrei Pruncul e a minha: Zamfir Arbore. Ruas-túnel, sim, em sueco estas ruas com túneis de árvores chaman-se allée, disse-me Sabina que vive comigo e me viu a vê-las, procurou ela, no dicionário a tradução para Inglês: Avenue, parece que esta perde todo o significado, as árvores desaparecem e ficam apenas as ruas, que podem, ou não ser túneis-de-árvores. Sabina é de Estocolmo onde este conceito existe, túneis-de-árvores, allée. Também na Alemanhã, os túneis-de-árvores são conceito comum, palavras de Rosanna.

Túneis de árvores, que aprazível conceito, que apetecível realidade que existe em Chisinau, Túneis verdes, alimentados de luz natural e em constante mutação, a luz move-se, o vento move a luz, o túnel agita-se. É extraordinariamente belo este verde, amarelo, vermelho que se move aqui como nas nossas veias. Energia vital, fundamento original que nos é comum e a que chamamos vida, a physis (Greek: φύσις), vida que não para de jorrar.

Porquê este fascínio humano por túneis? A nossa saída/entrada no mundo, foi também a passagem do túnel, quente, húmido, frio, escuro. A luz ao fundo do túnel. Aqui também a mãe que nos envolve, a mãe natureza, o nosso ritmo mais antigo, conciliado com o ritmo da urbe, da capital. Nesta antiga Chisinau conseguimos sentir, viver essa sincronia, ouvir o bater do coração nas copas das árvores.

Do útero materno, memoria antiga, do verde, da infância, a vontade de ser verde, de ser só ser.
Ser essa vida de sol e água.
Nestes túneis é a minha altura a medida da terra ao céu,
os meus passos a marcar as distâncias, são as crianças
que brincam e os cães que latem
abafando o rodar
eco das rodas mecânicas no asfalto-terra.
Ao acordar, antes de adormecer
ouvi os grilos, insectos
à minha volta viviam.
Tenho para mim que na cidade também há bosques,
que os caminhos de cabras, cavalos,
existem aqui.
Túneis ora desenhados pela passagem-altura das máquinas, no meio,
pequenos túneis feitos à passagem das gentes nos passeios.
Um dia, em vez de cortarmos árvores para construir casas, plantaremos árvores como fundações para as mesmas.
Quando for grande quero ter uma casa na árvore.

EN
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Tree Tunnels (Tunel-de-arbori)

Way down the street G. Mitropolit Banulesco-Bodoni, two in the morning, the streets are almost empty, while in the supermarket open 24 hours, few people shopping, the security guard greets me. I want fruits, bread, milk, maybe chocolate… someone touches my right shoulder; I turn in reflex, to see who it is… anyone … but, ah! He is on the opposite side, the security! I smile – he reciprocates. I was mistaken again!

I leave. It’s cold, the first cold of autumn 2011, in September, October… I turn left into the University of Economic Studies, I walk in the semi-darkness, asphalt ground, dirt, stone, concrete… and… an exit to the left: a tunnel of trees. Yes… breathe in, breathe out, I begin to feel at home. Street Anton Pann, the old city of Chisinau, in the heart of the city… My Moldovan home is here.

I don’t turn left, I continue straight forward, into the street Capriana with container stores on the left, and after the Elephant (cafe / tavern / bar district) I arrive to a large garden/square with no name where, in addition to the street Capriana, converges also the street Ion Doncev the street St. Andrei Pruncul and my street Zamfir Arbore – Streets-tunnel.

These streets with tunnels of trees are called Allée in Swedish, Sabina told me this. She lives with me and saw me looking at them, she looked for the English translation – Avenue – it seems that it loses the main meaning: the trees disappear and it leaves just the streets, which may or may not have tunnels of trees. Sabina is from Stockholm where this concept exists, tree-tunnels, Allée. Also in Germany, tunnels of trees are a common concept, Rosanna’s words.

Tunnels of trees, remarkable concept, beautiful reality that exists in Chisinau, green tunnels, fed with natural light and constantly changing, the light moves, the wind moves the light, the tunnel is shaken. It is extraordinarily beautiful, this green-yellow-red moving here as in our veins. Vital Energy, original foundation that we share and we call it life, the physis (Greek: φύσις), life that doesn’t stop flowing.

Why this human fascination for tunnels? Our input/output in the world, was also the passage of the tunnel, it will be also the crossing of the tunnel, hot, moist, cold,black. The light at the end of the tunnel. Here also the mother that surrounds us, Mother Nature, our oldest pace, reconciled with the pace of the metropolis, the capital. In this former Chisinau we can live, feel this harmony, we can listen to the trees’ heartbeat.

The mother’s womb, old memory, green, children, the desire to be green, only to be… be.
Be the life of sun and water.
Oh these tunnels are my height, the measure from earth to heaven,
my steps can mark the distances, the children
are playing and the dogs barking
muffling the sound
echo of the mechanical wheels on asphalt and earth.
Upon waking, before going to sleep
I heard the crickets, insects
that live around me.
I suppose that in the city there are also woods,
that the paths of goats, horses,
exist here.
Tunnels now designed by the passage of time-machines in the middle,
smaller tunnels made the crossing of people on the sidewalks.
One day, instead of cutting down trees to build houses, we will plant trees as foundations for them.
when I grow up I want to have a house on a tree.

Imagini de / Photos by Ana Nobre